47.º aniversário do 25 de Abril marcado pelo tema da corrupção

Nuno Melo: “Quem rouba um pão é ladrão, mas que quem rouba muito mais do que um milhão,

ou é administrador de topo de empresas públicas, banqueiro ou, até, primeiro-ministro”

 

“Não podemos falar do 25 de Abril sem passar ao lado do que nos choca, a propósito dos pilares fundacionais do regime. Não é aceitável convivermos hoje, aqui chegamos, com decisões judicias que não espelham o sentimento esmagadoramente maioritário das comunidades”. O presidente da Assembleia Municipal, Nuno Melo, aproveitou o palco da sessão extraordinária evocativa do 47.º aniversário do 25 de Abril, decorrida online, para dar voz ao clamor nacional que coloca o combate à corrupção na ordem do dia.

No discurso que encerrou as intervenções dos representantes dos vários partidos e do presidente da Câmara, nunca se referiu explicitamente ao Processo Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro, José Sócrates, mas não precisava, para que se percebesse o contexto: “aqui chegados, 2021, tantos anos depois do 25 de Abril, não podemos deixar que se instale a convicção de que quem rouba um pão é ladrão, mas que quem rouba muito mais do que um milhão, ou é administrador de topo de empresas públicas, banqueiro ou, até, primeiro-ministro”. Por isso, “falar de Abril, sem condenar violentamente o que digo, minando os pilares estruturais de todos um regime, ajudando tanto a ascensão dos extremismos – de estrema direita e de extrema esquerda -, e provocando um afastamento dos cidadãos em relação á democracia, não pode ser letra morta nem pode deixar de ser violentamente condenado”, disse, deixando claro que “compete-nos a nós políticos, ou aspirantes a políticos, ou concorrentes a eleições, saber fazer essa diferença, porque somos representantes do povo, nessa democracia representativa, e que nos dá mandato para lhe traduzir a voz nos nossos actos”.

 

Concelho está preparado para encarar adversidades expectáveis, garante Paulo Cunha

 

“Estamos absolutamente convencidos, no contexto difícil da crise sanitária que estamos a viver, que Famalicão está preparado, que o concelho está pronto para enfrentar as adversidades e ser bem-sucedido”. A certeza foi expressa pelo presidente da Câmara Municipal, Paulo Cunha, no discurso que abriu a sessão comemorativa do 25 de Abril.

“Estou seguro que aquilo que temos feito ao longo destes anos é o condimento necessário para que possamos ter uma boa expectativa de futuro para todos nós”, disse, invocando os investimentos feitos em sectores como a Educação, a Solidariedade, a Sustentabilidade, ou a Economia.

Consciente de que, ultrapassada a crise de saúde pública que ainda se vive, as comunidades se depararão com as consequências económicas e sociais de confinamentos que deixaram marcas nas actividades, o edil mostra-se confiante na “vontade férrea” dos famalicenses, já evidenciada noutras crises, para debelar as dificuldades.

A propósito, e atendendo ao agravamento da situação pandémica no concelho, não perdeu a oportunidade de apelar aos cidadãos do concelho para que contribuam activamente para uma inversão da situação, evitando com isso que Famalicão ingresse na lista dos que estagnam ou têm que dar um passo atrás no desconfinamento: “deixo um forte apelo aos meus concidadãos para que, no dia a dia, sejam os heróis dos nossos tempos, sejam comedidos, cuidadosos. Mais do que cumprir as normas, que as autoridades nos impõem, é preciso que dentro desse âmbito legal saibamos perceber o que podemos e não podemos fazer, porque o que está em causa não é tão só o cumprimento de um quadro legal, é o futuro de todos nós”. De resto, pegou no exemplo que deram aqueles que permitiram a Revolução dos Cravos, há 47 anos, para desejar que também agora “sejam exemplares”.

 

Corrupção povoa discursos

 

Paulo Costa, do Bloco de Esquerda, apelou a um futuro “mais justo, solidário, e até fraterno, mesmo nas dissensões que caracterizam o Humano”. Inspirado ainda pelos ideais de Abril, para as lutas “concretas e reais de uma cada vez melhor democracia”. Compromete o partido para responder á crise social e económica que se perspectiva por consequência da actual pandemia. “Contem com os autarcas do Bloco para lutar por uma melhor democracia, maior transparência na vida pública e combate férreo à corrupção”, concluiu.

Também Ricardo Costa, do CDS, passou pelo tema da corrupção lamentando que a justiça tenha perdido por estes dias uma “soberana oportunidade de se reafirmar como pilar central da democracia ao não punir a vilezas e iniquidades que mergulharam Portugal na falência económica e social vigente”. Considerou mesmo que “nunca os mais desprotegidos, os pobres, os trabalhadores e que cumprem com os seus deveres fiscais foram tão insultados no pós-25 de Abril”. “Ilibar, por deficiência processuais, políticos e outros, de crimes de corrupção é passar uma carta branca ao roubo institucional”, censurou. Desta feita, “o que poderia ter sido o fim da corrupção, como regime, pode muito bem ter sido o fim da democracia, decapitada pela instituição que mais a deveria defender: a justiça”.

 

“Abril ferido de morte”

 

A expressão foio de João Pedro Araújo, do PSD, para quem “o projecto de Abril falhou”. Falhou face à evidência da corrupção, da promiscuidade entre órgãos do Estado, face à falta de transparência – com uma entidade aprovada em 2019 e que não sai do papel por falta de instalações -, e à coação da comunicação social. Realidade que, no entender do social-democrata, “nos deixam corados de vergonha”.

Focou o olhar na justiça para caracterizar o momento que se vive de “aterrorizador”, denunciando que “nunca o povo lusitano se sentiu tão órfão da justiça, cada vez mais lenta, confusão, débil em recursos, que potenciam um sentimento generalizado de uma justiça célere e impecável com os fortes, e conivente e lenta com os fortes”.

 

PS censura “investimentos tardios, para eleitor ver”

 

Eduardo Oliveira, do PS, aproveitou a intervenção na sessão comemorativa do 25 de Abril para situar a discussão no plano local. “Não basta evitar a repetição do passado”, alegou, invocando os males e vícios do regime do Estado Novo, para incitar a comunidade famalicense a participar na vida pública: “é necessário encarar o futuro da nossa comunidade com visão de missão. É necessário entender os sentimentos e anseios dos nossos concidadãos e definir um novo caminho. Um caminho de inclusão, de progresso, de desenvolvimento, trilhado de acordo com as expectativas dos famalicenses, para o período pós-pandemia. Um caminho onde todos se sintam parte integrante do concelho, de um concelho que não funcione a duas velocidades, de todos e para todos”. Para o socialista, este é “o único caminho capaz de agregar e responder às questões emergentes”, porque “muito está pior fazer”. Apesar da cidade “justificar investimentos tardios, para eleitor ver”, considera que o território, nomeadamente, as vilas e freguesias, “merecem mais do que aquilo que esta Câmara lhes tem proporcionado”. Crítico, diz mesmo que a autarquia se tornou uma “empresa de trabalho temporário”, ignorando os reais problemas. “O nosso caminho é outro”, assegurou.

 

Jovens preocupados com o futuro

 

Catarina Ferraz, do Bloco de Esquerda, apelou à “união” na evocação de Abril, e sublinhou que os seus pressupostos devem ser “uma luta constante”, sob pena de “os podermos perder de vista, ainda que não os percamos da memória”.

Nascida depois da Revolução, mostra-se “assustada e apreensiva” quanto ao futuro, e considera que os jovens continuam a deparar-se com demasiados problemas, no acesso à Educação ou à Habitação.

Também jovem, Diogo Martins, da CDU, abordou a precariedade que afecta particularmente os jovens, com baixos salários, desemprego, subemprego, desregulação de horários e bancos de horas, que “provocam instabilidade e não permitem a conciliação do trabalho com a vida pessoal”. A juventude, disse, “precisa de respostas” aos seus problemas.

Tânia Silva, também da CDU, abordou também a precariedade, deixando claro que a pandemia veio “ampliar” o problema. “Mas Abril é do povo”, frisou, comprometendo o PCP com os valores da Revolução, na certeza de que “é pela sua afirmação, defesa e aprofundamento que se construirá o caminho para um Portugal mais desenvolvido, socialmente justo, e soberano”.

José Miguel Silva, também do CDS, também sente o peso de decisões que recaem sobre a sua geração. Entende mesmo que o desenvolvimento do país aconteceu, mas afirma que “se vive pior do que há 20 anos”. Quando se assinala a celebração da liberdade, o jovem mostrou-se convicto de que ela está refém de uma pobreza crescente.

Luís Miranda, do PS, também não sabe o que é viver “sem liberdade”, mas deixou claro que o Estado e a democracia “não falharam” consigo, ainda que Portugal esteja “longe de constituir uma sociedade plena, equilibrada e democratizada”. Assinalou os problemas da sua geração, nomeadamente, no acesso a transportes, habitação, ensino superior, ou oportunidades.

Censurou ainda a relação do poder local com os seus eleitos. “Em pleno 2021, assistimos às velhas façanhas eleitoralistas, em que em véspera de eleições autárquicas, temos um centro urbano que é um autêntico estaleiro, comparativamente a três anos de mandato equiparado a um deserto”, assinalou.

O último jovem da geração pós-25 de Abril a falar, em representação do PSD, foi David Carvalho, que assinalou a “inveja” que muitas das valências que Vila Nova de Famalicão causam nos seus congéneres. Um cenário que contrasta com o nacional, com as estruturas a demonstrarem “fragilidades que não deveriam existir”. Não tem dúvidas que, “não fossem os agentes locais, autarquias e associações, o nosso país teria mergulhado numa situação de autêntico descalabro social”.

Denunciou ainda uma sociedade desigual, “onde a justiça de uns não se aplica á generalidade, onde um cidadão com uma dívida ao Estado de cinco euros vê os seus bens ameaçados, quando perdões de centenas de milhões de euros são anunciados”.

 

 

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