Projeto municipal conta atualmente com 180 utilizadores
A terra que corre entre os dedos de quem a trabalha, não serve apenas para colher alimento. Serve, sobretudo, para semear bem-estar. É essa a realidade que se vive nas Hortas Urbanas de Famalicão que, neste Dia Mundial da Agricultura, se destacam como um verdadeiro exemplo de sustentabilidade humana. Para lá dos números, estes espaços são o palco onde a saúde, a inclusão e o envelhecimento ativo se cultivam diariamente.
Com uma área de aproximadamente dois hectares, as hortas localizadas na Avenida dos Descobrimentos, servem cerca de 180 famalicenses que gerem talhões com dimensões entre os 25, 50 e 100 metros quadrados. Para Teresa Castro, de 51 anos, a horta é o "desanuviar" necessário perante uma saúde frágil. Devido a problemas que a impedem de se baixar ou fazer grandes esforços, encontra nas hortas elevadas a solução perfeita para manter viva a paixão pela agricultura que herdou dos pais. Ali, entre o cebolo e a penca, esquece as limitações e foca-se no prazer de colher o que planta.
"Fui criada no campo e estas hortas são muito especiais para mim porque me permitem ter os meus legumes sem o esforço que a saúde já não permite", conta.
A inclusão também se faz pelo trabalho. A manutenção deste espaço conta com o empenho dos jovens Diogo Araújo e Manuel Silva, de 26 e 21 anos respetivamente, que trabalham no município famalicense ao abrigo de programas de apoio ao emprego para pessoas com necessidades especiais. Diogo destaca o prazer de "trabalhar ao ar livre". Já Manuel, que está no projeto há um mês, vê nesta oportunidade uma porta que “dificilmente se abriria noutro lugar”, sentindo orgulho em zelar pelo espaço e ajudar quem ali trabalha a terra.
Este ecossistema é alimentado por uma lógica de economia circular, onde os resíduos orgânicos, como as aparas de relva e a estilha de podas das árvores da cidade, regressam ao solo para nutrir os talhões. Num desses espaços, Sameiro Amorim, de 80 anos, mostra que a idade é apenas um número quando se tem as mãos na terra. Utilizadora há quase uma década, caminha diariamente das Lameiras para a horta, fintando a solidão de quem vive sozinha. A horta é o lugar onde ganha “anos de vida" e “o stress desaparece” entre conversas e plantações de feijão ou batata doce, uma cultura que tem conquistado cada vez mais espaço no terreno.
O Presidente da Câmara Municipal, Mário Passos, sublinha a importância estratégica deste projeto, referindo que “as hortas urbanas representam o compromisso do concelho com uma agricultura sustentável que coloca as pessoas no centro”. O autarca acrescenta ainda que estes espaços são um bom exemplo de “que o cultivo da terra em ambiente urbano é uma ferramenta poderosa para a saúde mental, para o envelhecimento ativo e para a integração dos cidadãos”.
Os interessados em juntar-se a esta comunidade podem candidatar-se através do formulário disponível em www.famalicao.pt ou no Balcão Único de Atendimento, podendo o documento ser entregue presencialmente ou via e-mail para camaramunicipal@famalicao.pt. Todos os hortelãos têm de frequentar, obrigatoriamente, uma formação gratuita de 12 horas em Agricultura em modo de Produção Biológica disponibilizada pelo município.