Cruzeiro Seixas 1920-2020

Mestre do Surrealismo português faleceu no passado domingo, aos 99 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa

 

Cruzeiro Seixas, um dos mestres do Surrealismo português, que viveu em Vila Nova de Famalicão entre 2012 e 2016, faleceu no passado domingo, aos 99 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Completava cem anos no próximo dia 3 de Dezembro.

A notícia foi comunicada na madrugada desta segunda-feira pela Fundação Cupertino de Miranda (FCM), que “lamenta profundamente a perda deste vulto da Cultura Nacional, que apoiou e acompanhou ao longo dos anos”. Recorde-se que a Fundação é detentora de mais de 400 obras do artista, assim como do seu arquivo pessoal, composto por cartas, postais, correspondência, cadernos manuscritos, fotografias, desenhos, catálogos, serigrafias, colagens, objetos, entre outros. Todos o espólio foi doado à instituição famalicense em 1999, e foi precisamente para estar perto do seu acervo que em 2012 se mudou para Vila Nova de Famalicão, onde permaneceu até há quatro anos.

 

Presidente da República lamenta perda da figura “multímoda da cultura portuguesa”

O Presidente da República, que em Junho de 2018 inaugurou o Centro Português do Surrealismo da FCM, onde inaugurou a exposição “O Surrealismo na Colecção Moderna da FCM), também já lamentou publicamente a perda da referência do Surrealismo português. Numa nota publicada ontem, segunda-feira, na página oficial da Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa lamenta a perda de uma figura “multímoda da cultura portuguesa”, que “revolucionou o nosso panorama artístico e literário”.

O Chefe de Estado apela às suas pinturas, desenhos, colagens objetos e poemas para afirmar que nestes “o mundo reencanta-se: é uma vez mais maravilhoso, insólito, fantástico, enigmático”. Citando versos da sua autoria, conclui: “ ‘sabem ler nos mapas mais secretos / e de olhos vendados / o intensíssimo / amor dos relâmpagos’. É esse segredo nunca desvendado, esse amor dos relâmpagos, que devemos a Mestre Cruzeiro Seixas”.

 

“Um amigo de Famalicão” e “um artista único”,  assinala o presidente da Câmara

Também o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Paulo Cunha, já reagiu à perda do mestre do Surrealismo. Nas redes sociais, lamenta a partida de “um amigo de Famalicão”, e de “um artista único cuja obra vai permanecer viva durante muito tempo em Famalicão mais concretamente na FCM”. Entretanto, ontem decretou dia de luto municipal em sua honra.

Foi precisamente das mãos de Paulo Cunha que Cruzeiro Seixas recebeu, em 2015, a Medalha de Honra do Município, o mais alto galardão que todos os anos é entregue nas celebrações do Dia da Cidade, assinalado a 9 de Julho, para distinguir uma personalidade que tenha contribuído, ao longo da sua vida, para o engrandecimento da comunidade famalicense.

No mesmo ano de 2015, uns meses antes, em Abril, também a Universidade Lusíada, por altura das comemorações do 25.º aniversário do pólo de Famalicão, decidiu atribuir ao Mestre do Surrealismo o título de Doutoramento Honoris Causa “pelo seu prestígio intelectual, artístico e cultural”. 

Em 2013, já o artista havia sido alvo de uma homenagem de outra natureza, ao ver uma das ruas de acesso ao Parque da Devesa ser baptizada com o seu nome. À data a Câmara Municipal era presidida por Armindo Costa, que em Setembro do ano anterior inaugurara o espaço verde de que durante décadas se falara.

 

Ministério da Cultura distinguiu-o com Medalha de Mérito Cultural

Mais recentemente, em Outubro de 2020, o Ministério da Cultura determinou a atribuição da Medalha de Mérito Cultural. Nas suas redes sociais, também a ministra da Cultura, Graça Freitas, lamenta a morte do artista, a quem se refere como “expoente do surrealismo europeu” e “decado da arte portuguesa”, que se afirma como “sinónimo do património literário e artístico português dos últimos 80 anos”. Para a governante, “a vida e obra do Mestre Cruzeiro Seixas representam um contributo inegável para a cultura portuguesa, com a força criativa, inventiva e sensível que a sua dimensão artística sempre manifestou e que a cultura portuguesa nunca esquecerá”.

 

Cruzeiro Seixas 1920-2020

Cruzeiro Seixas, cuja obra é conhecida e reconhecida nacional e internacionalmente, integrou o grupo “Os surrealistas”, ao lado de António Maria Lisboa, Mário Cesariny, Mário Henrique Leiria e Pedro Oom, entre outros.

Foi consagrado com a atribuição do Prémio Artista do Ano, em 1989 e com a edição de um álbum integrando numerosos testemunhos. Encontra-se representado em diversas colecções privadas e em instituições como o Museu do Chiado (Lisboa), Centro de Arte Moderna da Fundação Caloust Gulbenkian, Biblioteca Nacional, Biblioteca de Tomar, Fundação Cupertino de Miranda (V. N. de Famalicão), Museu Machado de Castro (Coimbra), Fundação António Prates (Ponte de Sor), Fundación Eugenio Granell (Galiza) ou o Museu de Castelo Branco.
Mário Cesariny, Herberto Helder, Alfredo Margarido, Mário Botas, Franklin Rosemont, José Pierre, Juan Carlos Valera, Bernardo Pinto de Almeida, Albano Martins, António Barahona, entre outros, dedicam-lhe poemas.
Artur do Cruzeiro Seixas nasceu a 3 de dezembro de 1920 na Amadora, Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio, entre 1935 e 1941, participando também dos encontros no Café Hermínius. Assim como os restantes surrealistas, sentiu-se atraído pelo Neo-realismo (1945-1946), mas as inquietações plásticas e os desejos de libertação estéticos e ideológicos conduziram-no para o Surrealismo.
Em 1948 toma parte na atividade dos surrealistas, mantendo um continuado contacto com o Mário Cesariny e outros membros do futuro grupo Os Surrealistas, de que é figura importante.
Cruzeiro Seixas tomou o leme do projecto surrealista, desde 1949, e não mais o abandonou até a actualidade, afirmando-se na área do desenho, na qual desenvolveu com grande perícia técnica um universo muito pessoal. Representa, na sua obra, um universo imaginário “estranho e cruel” através de contrastes entre pretos e brancos.
Em 1951 alistou-se na marinha mercante, viajando por África, Índia, Extremo Oriente e acabou por fixar-se em Angola até ao desabrochar da guerra colonial. Foi aqui que desenvolveu o gosto pela dita “arte primitiva”. Num percurso individual continua até a actualidade a acção surrealista.

Data de Publicação: Voltar à Página Anterior


Siga-nos

Publicidade


Última Edição!